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domingo, 28 de junho de 2009

Desinvertendo o invertido

Imagine que você nunca tivesse visto uma camiseta. Esse pedaço de tecido em um formato que se encaixa no corpo lhe seria uma novidade. Certo dia, uma pessoa resolve lhe apresentar essa façanha do mundo têxtil, mas com um pequeno erro: ela traz a camiseta invertida. Você, que não entende do assunto, certamente concordaria que a etiqueta para fora, as costuras aparecendo, e a estampa para dentro são coisas normais, e não hesitaria em dizer que todas camisetas do mundo devem ser assim.


A literatura judaica nos conta a história do filho de um grande sábio que fez uma visita aos céus, mas voltou e continuou vivendo normalmente. O pai, surpreso com o que aconteceu, pergunta: "Filho, o que você viu?", e o mais recente terráqueo responde: "Pai, vi um mundo completamente invertido. Os que aqui estão por cima, lá estão por baixo; e os que aqui estão por baixo lá estão por cima". O pai lhe devolve: "Filho, você não viu nada invertido. Esse é o mundo claro. Nós que vivemos em mundo invertido".


Desde que nascemos, estamos acostumados com a realidade do nosso mundo - achando que ela é normal. O que mais vale é o físico ao invés do que ultrapassa os limites físicos. Grandes quantidades de dinheiro são mais desejadas do que um bom relacionamento entre as pessoas, chegando até o ponto onde uns passam o pé nos outros para atingir alvos mais "elevados" - mas que de elevados não tem nada. Uma boa comida, mesmo que faça mal à saúde, deixa de ser evitada simplesmente por causa de transmissões nervosas responsáveis por prazeres passageiros. Corpos são capazes de seduzir amigos, pais ou mães e destruir amizades ou toda uma estrutura familiar. Quando dizemos que o mundo aqui embaixo está invertido, não é simplesmente um clichê ou um modo de expressar indignação. Muitas pessoas se deixam levar pelas aparências ao invés de essências, pelo exterior ao invés do interior, trocando os valores que deveriam guiar suas vidas.


A Torá nos ensina o que na verdade é superior e o que é inferior, o que é relevante e o que é e irrelevante, além do mais importante: como trabalhar nossas características e assim nos acostumar à realidade. Nosso papel no mundo é desfazer essa inversão, seguindo os moldes que recebemos de geração em geração, e somente assim conseguir mostrar às pessoas o que realmente é relevante e "conta pontos". Quem sabe, assim, chegará o dia em que o mundo aqui embaixo será idêntico ao mundo lá em cima. Quem sabe, assim, chegará o dia em que as pessoas entenderão que as costuras das camisetas devem ficar para dentro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Quem mente melhor?

Na parashá dessa semana Moshe manda os doze espiões verem como está a situação de Israel, a pedido de D'us. É famoso o pecado que eles cometeram: falaram mal da terra, e por isso o povo recebeu o castigo de ficar 40 anos no deserto. No entanto, uma coisa chama muito a atenção de quem lê o trecho. Eles começam falando que estiveram na "terra que jorra leite e mel". E isso não tem nada de errado, afinal de contas, essa é a promessa de D'us para nós até os dias de hoje, mesmo em tempos de crise econômica mundial.

Os espiões começaram todo seu pecado, a grande mentira, com uma grande verdade. Nosso sábios comentam, no local, que para uma mentira ter credibilidade ela deve ter sua parte de verdade. Contar uma história absurda e fora dos padrões da realidade é pedir para não acreditarem nela. O melhor mentiroso não é aquele que conta uma grande mentira - mas sim aquele que consegue aproximá-la da verdade.

O mesmo vale para as outras religiões. Se baseiam completamente em Torat Emet - a Torá da verdade - mas alteram detalhes essenciais, como a unidade divina. Fato que isso é bem aceito é comprovado pelo número de seguidores que existem pelo mundo inteiro. Afinal de contas, a parte verdadeira que elas possuem - a Torá que recebemos no Har Sinai - acaba atraindo muita gente. Mas não é por isso que elas sejam completamente verdadeiras - 99% de verdade é igual a 100% de mentira.

Relações interpessoais que não são preenchidas por transparência e verdade jamais podem durar para sempre. Como dito na Ética dos Pais, uma das bases do mundo é a verdade. Se queremos um mundo melhor, devemos adicionar em nossas vidas os ingredientes que proporcionam sua construção, e não sua destruição. Um dos ideais de um judeu deve ser se assemelhar a D'us. Devemos aprender com Suaas características. Assim como Ele criou o mundo, e é Verdadeiro, devemos ser verdadeiros e continuar Sua criação, sustentando o mundo com verdade.

(na mesma linha de raciocínio, leia nosso post Podar a Árvore)

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Cuidado no Alerta

Uma das coisas que mais incomoda quem deseja agir corretamente é observar alguém próximo fazendo um determinado erro constantemente. No entanto, muitos se questionam qual o direito que possuem de intervir na vida alheia, e não se sentem confortáveis em conversar com o amigo e adverti-lo. Aos olhos da Torá, qual seria a ação correta? Devemos nos sentir livres de avisar nossos amigos caso eles não estejam no caminho mais adequado, devido ao medo de não se intrometer na vida de alguém, ou será que somos obrigados a (pelo menos tentar) mudar a situação? Vire as páginas, vire as páginas, porque tudo está Nela - na Torá. No livro de Vaikra encontramos que há uma mitsvá de advertir o próximo: “Hocheach tochiach et amitecha” - não só temos o direito, como também o dever. Além disso, na Ética dos Pais está dito: "e adquira um amigo". Nossos sábios explicam que a importancia de se ter um amigo por perto se deve ao fato de um não se sentir atraído pelo ietser hara e assim conseguir enxergar melhor a essência do erro que o outro estaria prestes a cometer, alertando-o antes que fosse tarde.
Até ai, muitos sabem que devem advertir, mas não sabem como fazê-lo. Mesmo com a intenção boa, acabam agindo da maneira errada – e as conseqüências podem ser piores do que a indiferença.
D’us nos dá o mandamento de amar o próximo. Não é por acaso que isso aparece exatamente no versículo seguinte ao que nos ensina sobre a advertência. Daqui tiramos a primeira lição. Assim como D’us quer o bem de todas suas criaturas, porque Ele ama a cada um e um, nós devemos ser também. Deve ficar claro, tanto para quem fala quanto para quem ouve, que a força motora dessa conversa deve ser a mais pura possível: o amor. Todo o approach e a maneira de se passar a mensagem devem ser feitos o mais carinhosa possível.
Mas muitos ainda assim não se sentem bem, alegando que o certo é relativo. Perguntam a si mesmos: "desde quando somos os donos da verdade?". Desde que recebemos a Torá. Com ela, temos certeza do que é certo errado, aos olhos Daquele que criou o certo e o errado. Qualquer advertencia deve ser feita livre de interesses pessoais, com base no certo absoluto - e não relativo.
Por fim, mais uma lição: da nossa lashon hakodesh. É sabido que todas as palavras do hebraico possuem seus sentido ligado a sua raiz gramatical. O verbo advertir, lehochiach, também significa comprovar. Não podemos falar de advertencia sem lembrar que devemos mostrar para a pessoa o motivo dela estar errada. Advertir alguém por um erro que ela sequer não sabe ou não tem noção da gravidade é querer ensinar a atirar no escuro.
Que com se apoiando na base da Torá - o amor- possamos iluminar aqueles que estão a nossa volta, além de obviamente saber aceitar críticas construtivas da maneira adequada. Só assim poderemos ter um mundo mais correto, mais justo, e principalmente com o objetivo de toda a criação: o amor entre as pessoas.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Mais vale um na mão

Certamente você já se deparou em alguma situação em que gostaria de poder escolher, entre duas opções, as duas. Viagens, projetos, decisões, faculdade, e por aí vai.

No Talmud, dois grandes rabinos discutem sobre o dia da leitura da meguilá: isso deveria seguir duas conduções básicas. No entanto, em certo caso, devido a uma combinação de fatores, somente uma das regras poderia ser seguida. O que acontece no final é que cada um escolhe uma data, baseado em uma regra - e cada um decide algo diferente do outro. Quando um questiona o outro o porque da decisão, ambos dizem: não teve outro jeito de fazer! E sobre opiniões contrárias, nossos sábios dizem que ambas são verdadeiras, mesmo que opostas.

Às vezes, queremos abraçar o mundo todo. Escolher o máximo de coisas possíveis. Fazer o bem a muita gente. Mas nem sempre as condições permitem, nos forçando a abrir mão de alguma coisa. Escolhemos. Começam então as dúvidas e os questionamentos sobre como teria sido escolher o outro lado da bifurcação. É aí que devemos lembrar da frase de nossos sábios: ambos caminhos são bons, verdadeiros, e no fim das contas, qualquer um dos caminhos escolhido representa Sua vontade: o bem de cada um de nós.

Por isso, quem deseja pouco as vezes alcança mais do que quem deseja muito.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Helenização? Não, obrigado

Em um país como o Brasil, é interessante ver quanta gente diferente convive junto. No meio universitário, isso é reforçado pelo número considerável de alunos de pós-graduação que saem de seus países ou por alunos de intercâmbio. Ontem tive a oportunidade de conversar com uma professora, que me explicou o motivo de seu sobrenome um tanto diferente: seu pai é de origem grega. Até ai, tudo bem.
Papo vai, papo vem, ela conta que já esteve em Israel. Até ai, tudo bem. Afinal de contas, não são raros congressos mundiais em Israel (isso sem falar nas universidades de ponta que existem por lá). Quando perguntei quais cidades ela visitou, logo disse: Holon, Hevron, além das óbvias Jerusalém e Tel Aviv, entre outras. Origem grega?
Sim. O problema é que só seu pai. Sua mãe é judia, e portanto, ela também. Ao perguntar se ela sabia que era judia, ouvi um "já ouvi dizer por ai" bem despreocupado. Quantas pessoas, assim como ela, devem existir só aqui no Brasil, que são iehudim e não sabem? Quanto disperdício. Possuímos uma das mais antigas culturas do mundo, temos o copyright do livro mais vendido no mundo, e muitos por ai nem dão valor. Não consigo imaginar o número de iehudim que sabem e não dão valor, e muito menos imaginar outro número, maior ainda: o de iehudim que nem sabem de sua essência. Tanta dor não entra na minha cabeça.
O que sim está na minha cabeça é a resposta para isso: enquanto não estivermos todos em Erets Israel, e ("e", não ou) seguindo nossos princípios milenares, estaremos sujeitos a ver a próxima geração com sobrenomes um tanto diferentes.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Lag Baomer: mais de vinte séculos, lições atuais

Hoje é Lag Baomer, o trigésimo terceiro dia da contagem entre Pessach e shavuot. Foi no mesmo dia que hoje que pararam de morrer, há quase dois mil anos, os alunos de Rabi Akiva pela falta de respeito um com o outro. É hoje também o aniversário de morte de Rabi Shimon Bar Iochai (um dos 5 alunos que sobraram de Rabi Akiva após a peste). Ele foi o autor do livro base da tão comercialmente explorada kabalá, e quis que seu aniversário de morte fosse comemorado com muita alegria.

Um dos símbolos que representa este dia é o arco e flecha. A explicação para isso é que na época de Rabi Shimon Bar Iochai os judeus eram proibidos de estudar Toraá Como é impossível um judeu se desligar da Torá, eles A estudavam escondidos. Quando os guardas do imperador vinham ver o que estavam fazendo, sacavam cada um seu arco e flecha e fingiam estar treinando.
Mas o arco e flecha não nos passa somente a mensagem da resistência espiritual (e hoje em dia, da liberdade e da vitória do povo judeu sobre aqueles que tentaram destruí-lo). Ele transforma toda a energia potencial em movimento. Quanto mais pra trás a flecha vai, maior é a distância que ela alcança. Quanto mais esticada a corda, mais energia armazenada.

O mesmo vale para cada um de nós. Quanto mais afastada do judaísmo uma pessoa é, maior é seu mérito ao cumprir qualquer mandamento, e maior é sua recompensa. Nós vivemos distantes de Israel, no "fim do mundo à esquerda" do judaísmo, e convivemos com tantas outras culturas. Cada pequena mitzvá cumprida, justamente por ser mais difícil e suada, é muito mais considerada, e suas consequências, físicas ou não, conseguem chegar muito mais longe.
Dessa maneira, o arco e flecha também simboliza esperança. O judaísmo não vê o sofrimento/dificuldades de forma negativa: D'us faz tudo para o bem, com o objetivo de transformar a pessoa, buscando um crescimento pessoal (leia "Eu quero! Eu quero!"). Que quando 'nossas cordas estiverem esticadas', olhemos um pouco para o futuro, imaginando a flecha indo bem longe, e assim recebendo mesmo as dificuldades com amor a D'us.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Aficoman

Sem dúvida o Seder de Pessach é uma das maiores criações pedagógicas judaicas. Uma aula interativa que se vale de todos os recursos sensoriais e psicológicos para incutir o sentimento da redenção dos judeus do Egito nas novas gerações
Portanto existem no Seder vários pequenos detalhes que podem passar desapercebidos por um observador desatento. Um deles é o Iachatz.
Na frente do condutor do seder existe uma Keará (bandeja) sobre a qual, entre outras coisas, se encontram 3 matzot. Após comermos o Karpas (a batata ou o salsão mergulhado na água com sal), o condutor do seder agarra a Matzá central e a parte na metade, e esconde metade dela para o Aficoman (que é procurado pelas crianças no fim do Seder).
Esse costume enigmático representa mentalidade de escravos com a qual iniciamos o Seder. Ao vermos um pouco de comida na nossa frente, guardamos metade para amanhã. Quem pode ter certeza se amanhã teremos mais? Somos como refugiados de guerra que temem pelo futuro incerto.
Porém quando chegamos ao fim do Seder, após termos lido a Hagadá e jantado, passamos por uma transformação. Agora não somos mais escravos: somos homens livres. Agora não tememos pelo amanhã: nós confiamos plenamente que o mesmo D-us que nos tirou do Egito irá nos garantir a janta de amanhã.
Portanto, quando chegamos ao fim do Seder, mandamos as crianças buscarem o Aficoman, e o comemos sem pensar duas vezes. Aliás, de acordo com a Lei Judaica o Aficoman precisa ser comido antes da meia noite. É proibido manter a “cabeça de escravo” por tempo demais.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

[livros] - Desvendando o Homem

Foi lançado, essa semana, o livro Desevendando o Homem. O autor, Rabino Samy Pinto, explora o pensamento do Maharal de Praga sobre a educação. Entre outros assuntos abordados, é dada ênfase ao amor necessário à educação de cada indivíduo, antes de se pensar na educação de uma comunidade inteira.
No evento estavam presentes, entre líderes da comunidade, o educador e vereador mais votado das últimas eleições, Gabriel Chalita (vale a pena ler seus textos), e um professor da Universidade Bar Ilan (Israel). Rabino Samy Pinto possui bacharelado em Economia pela Faculdade de Ciências Econômicas do Rio de Janeiro, é especialista em educação pela Universidade Bar Ilan, e pH.D. em Letras Orientais pela USP.
O livro pode ser comprado na Livraria Sefer. Transcrevo aqui a contra-capa do livro, escrita por Gabriel Chalita.
"O livro do Rabino Samy Pinto é uma obra-prima, uma reflexão cuidadosa sobre a complexidade do sistema educacional e a sua relação com a essencialidade humana: a felicidade. A felicidade humana é a nossa maior vocação. Sua definição é simples e, paradoxalmente, complexa. Ser feliz é ter virtudes. É amar ao outro e a si próprio. A felicidade contempla o bem e nos faz ser bons. Ilumina com sabedoria e nos faz conviver, compartilhar a vida harmoniosamente com outros seres humanos. A sabedoria nos ensina a moderação e a compreensão. Moderamos os nossos apetites e compreendemos o outro, que não é o resultado de nossas projeções, mas é sujeito de sua própria história. Essa felicidade nos leva a viver em paz. Paz interior e paz social.
E é esse o nosso sonho. Transformar a nossa vida num serviço, superando vícios e construindo virtudes. A ética, caminho único para a felicidade, segundo Aristóteles, nos conduz por essas sendas. A riqueza do meio termo, do equilíbrio, do respeito na edificação de um mundo mais harmonioso.
E a educação é o melhor caminho para que a potência humana se concretize em ato. Tudo vem dos bons hábitos semeados durante a infância e a adolescência. Daí a importância crucial da educação como agente de transformação e elevação do ser humano. A reforma educativa judaica proposta pelo Rabino Maharal nasceu das inquietações desse filósofo da educação que, observador crítico do sistema educacional ashkenazita da época, ansiava por uma pedagogia transformadora, humanizadora e intelectualista. A educação sempre foi objeto de investigação de homens iluminados. São os entusiastas. Entusiastas como Maharal, entusiastas como Samy Pinto, que nos presenteia com este brilhante trabalho sobre a trajetória de um educador que preconizava que as "boas raízes jamais permitirão que árvores caiam e que seus frutos deixem de alimentar a sociedade". O Rabino Samy Pinto é a prova disso. Consegue unir densidade acadêmica, discurso e prática a serviço do outro, do seu encontro com a vocação primeira, ou seja, a felicidade plena."

sexta-feira, 27 de março de 2009

Just do it

Ninguém gosta de ouvir promessas que não se cumprem. Certamente você já reencontrou com aquele amigo de infância e depois dos caloroso cumprimentos e de se lembrar de velhas histórias, combinaram de sair. No final, deve ter escutado um "vamos sair, mesmo!" ou um "pode deixar que eu te ligo!". Passa o tempo, vocês se encontram novamente em alguma festa e se lembram que o combinado não saiu de suas mentes...
Já estávamos 4 shabatot falando sobre a construcao do mishkan. Nas parashiot anteriores, D'us passa para Moshe todos os detalhes da magnífica obra. Na parasha de pekudê, lemos que Moshe e Am Israel fizeram de acordo com o ordenado por D'us. No entanto, ao invés de economizar parágrafos e capítulos, falando simplesmente "e Moshe fez de acordo com o ordenado", todos os detalhes são repetidos: roupas dos cohanim, cortinas, paredes, os ganchos para estender sobre as cortinas, e os utensílios, entre outras coisas. Tim tim por tim tim, novamente.
Se planejar algo e colocar em prática fosse a mesma coisa, não haveria necessidade de repetir cada vírgula da construção do mishkan. Isso vem nos mostrar que, pelo judaísmo, a teoria e a prática são coisas completamente distintas. Apesar de serem extremamente ligados e dependentes, o momento do planejamento teórico é um, e o da execução é outro. Cada um tem seu valor independente, e por isso, no judaísmo, mesmo que não se entenda algum conceito ou alguma mitsvá perfeitamente, ganhamos sua recompensa somente por realizá-la. É sabido também que todo o objetivo final de estudar Torá é trazê-la ao mundo físico, e transormá-lo, através de mudanças e ações, seja no relacionamento com si mesmo, com os outros ou com D'us.
Aqueles que fazem mais do que falam estão no caminho certo. Como dito em Pirkei Avót (Ética dos Pais), "Emor meat, vaasse harbe" - fale pouco e faça muito.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A grande mistura

Para uma pessoa religiosa, eu diria que eu sou uma pessoa que mantém bastante contato e troca ideias com pessoas não tão próximas do judaísmo. Vira e mexe, escuto um forte questionamento: por que há tanta divisão entre os religiosos, e mais ainda, entre eles e o não religiosos? Será que isso é certo?
A parashá que lemos anteontem conta alguns detalhes do mishkan, entre eles o ktoret (incenso) que era queimado todo dia. No total, 11 ervas compunham sua receita: dez delas com aromas agradáveis, e uma delas com um cheiro não tão gostoso. Não seria estranho, num lugar de tanta beleza (como comentamos aqui), no lugar onde a schiná (presença divina) estava presente (!), colocar uma essência assim?
Nossos sábios comentam no Talmud que isso era um exemplo perfeito de como deveria ser o comportamento do povo. Mesmo com todas as diferenças entre pessoas com estilos de vida variados (e até opostos), todas devem estar juntas, com o mesmo objetivo: assim como os ingredientes do ktoret estavam. E nem por isso a essência excêntrica era deixada de lado. Hoje em dia, vale o mesmo. Pessoas não tão próximas da Torá, religiosos, pessoas que pensam diferente, desconfiados, pessoas com dúvidas e questionamentos: todos devem estar juntos e lembrar que pertencem à mesma raiz.
No entanto, não digo que esse contato deve ser feito de qualquer jeito: a identidade judaica estar firme o suficiente (e aí por sua conta e risco) para uma interação saudável. Conheço pessoas que saíram de repente da "bolha" e acabaram se perdendo. Mas se você vir uma pessoa que se diz religiosa e possui um tratamento pejorativo com aqueles que não se dizem religiosos, questione seu comportamento se baseando no ktoret, e veja se ele possui uma resposta válida.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Direção certa

Como diria a estrela do samba rock, Seu Jorge, "está na luta, no corre corre, no dia-a-dia". De fato, a rotina puxada às vezes nos garante somente poucos momentos livres - e fica difícil não querer descansar nesses intervalos. Por isso uma leve diminuição na frequência com que os posts são colocados, e mais do que isso, as ideias da semana passada ficaram para depois - e o depois é agora.
A parashá da semana passada, terumá, gastou boa parte de seu conteúdo explicando as roupas que o Cohen HaGadol usava. Sua proximidade com o trecho que explica alguns korbanot (sacrifícios) faz nosso sábios concluírem que, da mesma maneira que os korbanot limpavam alguns pecados de Am Israel, assim também as roupas especiais o faziam: o ktonet (um tipo de avental) "limpava" eventuais assassinatos, o michnassaim (um tipo de calça capri) garantia o perdão por relações proibidas, os acessórios usados na cabeça perdoavam aqueles que eram metidos e arrogantes (com o ego lá em cima, assim como a cabeça está lá em cima), e o meil (uma roupa azul - tchelet) trazia perdão por fofocas & cia. - a famosa Lashon Hará.

Um motivo simples para o meil trazer kapara por Lashon Hará é que ele possuía vários sinos ao seu redor. Lashon Hará é feita com o som mais comum: a voz. Os sinos, por também produzirem sons, sons sagrados ao invés de profanos (como das fofocas), nos ensinam em que sentido devemos utilizar nossos dons.

Um motivo mais filosófico é trazido pelo Maharal de Praga. A cor azul do meil é a mesma do tsitsit: ao olhar para essa cor, lembramos do mar, ao lembrar do mar nos recordamos do céu, e o céu nos lembra D'us. Não é simples: algumas etapas necessárias para chegar em um objetivo final, através da nossa imaginação. Com a Lashon Hará é a mesma coisa, porém puxando para o lado ruim: muitas vezes nos deparamos com situações, e ao julgar para o lado ruim, já imaginamos coisas. Coisas que, em muitos casos, não aconteceram em nenhum lugar fora das nossas cabeças. Mais uma vez, o meil nos ensina que todos os dons, características, e super poderes que cada um de nós tem, deve ser utilizado com o intuito de nos tornarmos pessoas cada vez mais bondosas, mais produtivas, ao invés de utilizá-las para trazer mais escuridão à nossa volta.

terça-feira, 10 de março de 2009

A consciência judaica

O exílio físico e espiritual do povo judeu tem dois grandes marcos: um no seu início (após a destruição do primeiro Beit HaMikdash) e um no seu final (antes da declaração da independência de Israel). O primeiro desses marcos foi Purim, quando foi frustrada por completo a tentativa de aniquilar o povo judeu. O segundo foi a Shoá, quando infelizmente, essa tentativa foi frustrada mais tarde do que devia.

O denominador comum entre os dois eventos foi o fato de um império de dimensões mundiais (o império Persa se alastrava desde as portas da Índia até o Egito, e a Alemanha nazista tinha pretensões não muito menores), sob cujo domínio vivia boa parte do povo judeu (no caso da Pérsia, literalmente todo o povo), declarar os judeus como inimigos nacionais passíveis de aniquilação.

De acordo com a Guemará, os judeus na época de Purim foram punidos (correndo risco de extermínio) porque participaram do banquete de Achashverosh. O rabino Shlomo Elkabatz (o autor do Lecha Dodi) escreveu o mais belo livro existente sobre a Meguilat Ester (o nome do livro é Matanot Levi). Nele ele explica que toda a comida da festa dada por Achashverosh era 100% Casher, e os judeus da época viram isso como uma autorização par tomarem parte nela. “Afinal de contas, se a comida é Casher qual é o problema?”

Essa observação feita pelo rav Elkabatz levanta uma pergunta pertubadora: então, pelo amor do bom D-us, qual foi o grando problema dos judeus terem participado da festa de Achasverosh? O problema é que o intuito dessa festa era divulgar a supremacia dos Persas sobre todas as outras nações conquistadas por eles, inclusive Israel. A Guemará descreve que Achashverosh fez questão de utilizar os utensílios do Beit HaMikdash na festa. Porém esse não era o motivo oficial da festa. Isso era apenas um ponto secundário na festa. Exatamente por isso os judeus se deram ao privilégio de ignorá-lo.

Essa é a maior paródia do judeu da Galut. A comida Casher é imprescindível, porém o desprezo pelo Templo pode ser ignorado. O, assim conhecido, judaísmo “do estômago para baixo” expressa a cabeça da Galut. Esse judeu pode se preocupar com todas as minúncias da Halachá, mas esquece do espírito que há por trás dela. Ele pode saciar a sua sede espiritual fechando-se em si mesmo e ignorando o que acontece ao seu redor. “O importante é que a comida do meu prato seja Casher”

Purim foi uma lição que nós precisávamos aprender no começo da Galut (infelizmente ainda não a assimilamos totalmente): judaísmo não é apenas religião. Não é possível ser um bom judeu ignorando o que acontece ao meu redor. Não nos é permitido fechar os olhos às afrontas que ocorrem ao nosso redor. Nós não podemos ignorar a nossa dimensão nacional.

Essa é parte do libelo de Haman e de Hitler: não importa o que o judeu faça ele sempre será um povo diferente dos outros, ainda que ele pise e sapateie sobre as sua mitzvot. Mesmo na Galut o judeu possui uma dimensão nacional e ai dele se esquecer disso. Ao entender isso o judeu fortalece as suas duas dimensões: tanto a religiosa como a nacional. Ele entende que é impossível dissociar a Torá do mundo real; externo. D-us escreve reto por linhas tortas, e sem dúvida parte da função da Galut é fortalecer a nossa identidade nacional.

Não somos uma nação como todas as outras. Graças a Torá nós somos capazes de sobrevivermos mesmo no exílio, longe da pátria. Porém não somos uma religião como todas as outras. Graças a Torá somos capazes de nos reunirmos ao fim do exílio de volta a nossa pátria.

terça-feira, 3 de março de 2009

Ninguém nos apaga

Como escrevemos aqui, a última quarta-feira foi rosh chodesh adar, e também fez um ano (pelo calendário hebraico) do atentado a yeshivá de Merkaz Harav.
A data foi lembrada, na mesma yeshivá, de forma muito bonita e de um ponto de vista . Ao invés de expressar ódio e outros sentimentos de vingança, a última quarta foi marcada por muito amor: oito novos sifrei Torá foram doados, cada um em memória a um estudante assassinado. Amor pela Torá, amor por Am Israel, amor por Eretz Israel. Foi demonstrado, mais uma vez, que a fonte inesgotável de sabedoria e alegria do povo judeu nunca poderá ser apagada da face da terra. Podem tentar nos apagar quantas vezes quiserem - mas escreveremos a nossa essência quantas vezes for necessário.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Limitar o Ilimitado?

Há duas semanas líamos sobre a entrega da Torá. Um evento único na história, que chama a atenção por ter sido algo imponente: milhões de pessoas, milagres expostos. Se tentarmos definir ou conceituar essa Revelação Divina, podemos nos satisfazer com uma palavra: expansão. D'us mostrou para todos que é Único, e expressou isso também com palavras, através dos dois primeiros mandamentos. Ele é Único, e em todos os 510 milhões de km² da Terra e no resto do universo, não existe mais nenhuma divindade.

Pois bem. Essa semana lemos sobre algo inédito (como comentamos antes aqui): D'us ordena que Moshe construa o Mishkan - um templo no melhor estilo "faça você mesmo": flexível e que podia ser montado quando necessário. Além de inédito, isso até soa um pouco contraditório com o Maamad Har Sinai (entrega da Torá). Agora o D'us ilimitado quer que a gente O encontre em um lugar limitado? O D'us infinito quer se "encaixar" em um local de 50x25m? O D'us atemporal quer que a gente tenha contato com Ele em tempos determinados?

Vamos tentar fazer um paralelo, guardadas as devidas proporções. Para eu saber quem é Michael Phelps, não preciso comer 12.000 Kcal todo dia, não preciso treinar horas/quilômetros em uma piscina, e não preciso fazer musculação todo dia (nem tomar dopping?). Não preciso viver a vida do melhor nadador do mundo. Basta ligar a TV numa final olímpica, ver que ele faz 100 metros em 47 segundos, e que ele ganhou oito medalhas de ouro em Pequim. Tudo dentro do que sou capaz de fazer.

Voltando ao nosso assunto, por mais que pareça um paradoxo, essa também é a realidade da Torá. Ela quer que a gente capte Sua presença dentro das nossas possibilidades. Do mesmo jeito que somos limitados por nosso corpo, estamos presos por nossos sentidos. Bastava entrar no Mishkan para ver aquela obra arquitetônica, aquelas lindas peças banhadas a ouro e cobre, sentir o aroma do ktoret (incenso), e assim, em um espaço limitado, se conectar ao D'us infinito. Hoje em dia não muda muita coisa. Ele não quer que façamos nada de outro mundo - basta usar nossos sentidos para perceber a presença Divina nos menores detalhes que regem o mundo.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cada coração é precioso


Demorou, mas aqui estamos novamente. Enquanto o povo tupiniquim sai da ressaca do carnaval, nós iehudim só estamos agora entrando no mês da alegria. Ontem foi Rosh Chodesh Adar, o primeiro dia de do mês em que é comemorado Purim. Como diriam nossos sábios, "quando começa Adar, aumenta-se a alegria".

Na parashá dessa semana, terumá, estão alguns detalhes técnicos do Mishkan, e também o mandamento de construí-lo: "Veassu li mikdash, veshachanti betocham" - "E vocês vão me fazer um santuário, e Eu morarei neles". Quem bate de relance na frase, acha que Moshé Rabenu cometeu um gravíssimo erro de concordância - um mikdash: morar nele e não neles.

Nossos sábios explicam que isso não foi nenhum erro gramatical, e mas foi um "erro" intencional. Essa contradição pode facilmente ser explicada. O mandamento de construir um santuário é valido para cada iehudi, e não somente naqueles velhos tempos. Isso se aplica em cada dia do século XXI: devemos trabalhar para lapidar individualmente o nosso próprio "santuário". Nossos corações devem ser aperfeiçoados a cada dia, devemos melhorar nossas midot (traços de caráter), devemos estudar Sua Torá e fazer o bem. Esse trabalho, em cada caso particular, pode ser até mais difícil do que construir aquele antigo e enorme templo físico. Somente assim, com muito esforço e dedicação constantes, a promessa é cumprida: Hashem poderá morar nos nossos corações.

Partindo da parashá da semana, chegamos no assunto da semana - e nada é por acaso. No Rosh Chodesh Adar do ano passado aconteceu uma grande tragédia para Am Israel: um terrorista palestino (com cidadania israelense!) assassinou oito adolescentes que estudavam na famosa yeshivá de Merkaz Harav. Esses oito jovens valiam, cada um, tanto quanto um Mikdash vale para nosso povo. Após um ano desse trágico acontecimento, nos aproximamos mais uma vez da festa de Purim. Esperamos que, do mesmo jeito em que (com muito esforço e crescimento não físico) a tristeza dos tempos de Mordechai foi transformada em alegria, possamos superar a dor e atingir a verdadeira felicidade do mês de Adar.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Eu quero! Eu quero!

Durante mais de dois meses estive esperando por duas coisas: o conserto de um computador e a aprovação de um projeto de pesquisa científica. Cada dia que passava, eu entrava em contato com as entidades responsáveis. Não aguentava mais as situações de 'em análise', 'aguardando confirmação', entre outras sequelas burocráticas. Finalmente, em um intervalo de menos de 4 horas, o que eu tanto esperava realmente aconteceu: tanto o suado e longo projeto foi aprovado, quanto o PC - tão Pessoal quanto Computador - funcionava novamente.

Extrapolando um pouco e brincando com comparações, uma criança pede um presente para o pai. Recebe um não. Esperneia, recebe mais um não. E isso continua ocorrendo até o momento em que a criança cresce em algum aspecto - e o pai percebe que seu filho já merece o que tanto desejava. Como resultado, o filho vai dar muito mais valor do que se tivesse ganhado o presente de graça, sem nenhum esforço, sem nenhuma espera.

Todo dia, toda hora, a todo momento, queremos receber o que tanto desejamos. D'us, por Sua extrema bondade - Sua essência - deseja nos dar tudo do bom e do melhor. Por que então não ganhamos? Porque nem sempre estamos prontos para receber: para um fluxo constante de água enxer o copo, o mesmo não pode estar furado - e de nada adianta colocá-lo embaixo até de uma cachoeira. Após o crescimento pessoal, após a mudança de características (midot), consertamos certos defeitos, e assim merecedores de um prêmio - e não de um presente, que vem de graça. O prêmio adquire outro valor, e é muito mais gostoso. Aí é so comemorar.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Quem viu?

É nas últimas duas semanas que se encontra, nas parashiot, uma das fortes provas racionais da emuná - a fé judaica. Ao contrário do que muitos pensam, o judaísmo não é uma fé cega, que simplesmente acredita em milagres vistos por poucos. Antes de acreditar, estudamos muito; nossa fé, antes de chegar no coração, passa pelo cérebro (e já passou por milhares de gênios do mundo da Torá ao longos dos milênios).
Pare para imaginar no que foi a saída do Egito: todos viram o mar se abrindo, e enquanto passavam pela terceira margem (a de baixo) seca, apontavam com seus dedos "Ze Eli veanvehu" - 'Este é meus D'us". Não foi uma pessoa que teve um sonho, não foi um grupo de dez pessoas, mas sim milhões de homens, mulheres, e crianças. Lemos nesse shabat a parte que narra a entrega da Torá. Mais uma vez, os mais de 3 milhões de pessoas viram a revelação Divina com seus próprios olhos, escutaram os trovões, escutaram os primeiros mandamentos da 'boca' de D'us. Algo como 30 estádios do maracanã. Suficiente, não?
Você pode mentir para muita gente durante muito tempo, mas é impossível mentir para todo mundo o tempo todo. É impossível enganar um povo inteiro, mais ainda por milênios. E nós estamos, ano após ano, vivos e comemorando a Pessach e Shavuot - as festas que representam essas duas situações: a abertura do mar e a entrega da Torá - assim como nossos antepassados comemoraram no primeiro ano após esses acontecimentos.
O judaísmo é e sempre será uma religião sem igual, única. Por que? Podemos fazer um blog só pra isso, mas uma boa resposta é que apresenta fatos históricos únicos, não encontrados em nenhuma outra das religiões (que, por acaso, saíram dela).

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Nigun Cracow

Coloco aqui um vídeo que conta a história sobre a origem de um nigun (música que não contém letra alguma, mas somente uma melodia). Em geral, os nigunim conseguem mexer muito com os sentimentos e emoções. O nigun em questão leva o nome da cidade onde foi criado, Cracóvia. A versão deste clipe é um pouco diferente dos nigunim tradicionais, que são em geral cantados (e não possuem solos de guitarra e viradas de bateria tão 'modernos'...).

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Mastros no Mar Vermelho

Para nós, yehudim, globalização não é uma novidade. Judeus de todos os cantos do mundo vivem em sincronia, através de um mesmo calendário e um mesmo estilo de vida. É exatamente essa característica que ajuda a absorção de um yehudi em qualquer canto do mundo: sempre é possível encontrar algo que relembre a nossa casa (as mesmas rezas, os mesmo livros, os mesmos costumes, e até mesmo as mesmas piadas).
Porém existem diferenças, especialmente em Israel. A vida judaica aqui adquire um caráter nacional, o que a enriquece muitíssimo. Shabat passado lemos na Torá o "Az iashir" - a canção que o povo judeu cantou após a abertura do mar Vermelho, comemorando e agradecendo a bravura de D'us. Entre outras coisas que lembramos nessa canção está o conhecimento de que D'us é Aquele que guerreia por nós. "HaShem ish milchama, HaShem shemo". "D'us é um homem de guerras, D'us é o seu nome". Na continuação da parashá também lemos sobre a primeira guerra (e consequentemente, a primeira vitória) propriamente dita do povo judeu: a guerra contra Amalek.
Aproveitando esse cenário de fundo, o rabinato chefe de Israel decretou que esse Shabat seria dedicado para agradecer a D'us pelos milagres que Ele realizou nessa última guerra, no mês passado, em Gaza. Passei o Shabat em Kriat Arba, ao lado de Chevron. Após a reza de Kabalat Shabat e Arvit, fomos jantar com a família, e depois, mais tarde voltamos a sinagoga para cantar algumas músicas (conhecidas pelos sefaradim como "Bakashot"). Após aquecermos as gargantas, preparamos os ouvidos para escutar as histórias de alguns soldados que estiveram em Gaza.
Não importa quantos milagres escutemos, sempre é chocante escutá-los de primeira mão. Um soldado comentou que em um dado momento, na primeira semana da guerra atiraram granadas contra o seu destacamento. Ele contou, que ele próprio foi pego de surpreso e não teve reação naquele instante. Porém as granadas não explodiram. Outro deles contou que o seu destacamento havia sido designado para invadir Gaza na primeira noite da guerra, porém por problemas técnicos a invasão foi adiada até a manhã seguinte. Conforme os soldados foram avançando no dia seguinte, puderam distinguir fios elétricos espalhados no meio do vinhedo por onde eles avançavam. Assim que se deram conta, começaram a recuar: explosivos. Quando haviam conseguido atingir uns 100 metros de distância, escutaram as cargas explodindo: 7 delas de vários lugares simultaneamente. Ele contou que vários soldados foram jogados ao ar devido a força da explosão (e muitos viram as armas escaparem de suas mãos), porém apenas dois se feriram levemente. Seria impossível distinguir os fios no meio da noite.
Outro soldado contou que o seu comandante, não religioso, chegou para o seu destacamento no primeiro dia da guerra com um pacote cheio de tzitziot: "Ninguém entra em Gaza sem vestir um tzitzit antes! Isso irá nos proteger!". De acordo com ele, inclusive dois soldados voluntários peruanos (que não eram judeus) também vestiram os tzitziot. No fim do segundo dia dos combates quando puderam descansar, puderam perceber que havia furos de balas nas suas armas (no "cat", a parte de trás do fuzil, que é apoiada no ombro, a alguns centímetros da carótida e da jugular).
Milagres atrás de milagres... A palavra para milagre em hebraico é "nes". "Nes" também significa mastro. Algo que pode ser visto à distância. Através dos milagres, D'us acena para todos que ele está ali atrás.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Mãos à obra!

É nessa semana que se conta sobre a saída do Egito e sobre a abertura do Iam Suf. Li um dos comentaristas falando que no momento em que o mar se abriu, todas as águas do mundo se dividiram em duas. Fiquei imaginando como seria beber um copo de água aqui no Brasil, como seria Michael Phelps terminando um revezamento em Pequim e a situação de desespero no Sea World, em Orlando, entre outras viagens.

Voltando à realidade, uma passagem merece destaque. Assim que soube que Am Israel ainda estava próximo, o Faraó resolveu voltar atrás de sua decisão, e pegar todo o povo e tudo o que tinham levado. Assim, Am Israel ficou encurralado e, no desespero, reclamaram ao seu líder Moshe. Mesmo sabendo que todos iriam se salvar (e que, para que isso acontecesse, teria que andar em direção ao mar), Moshe resolveu rezar para D'us. Como uma resposta diferente do que nosso líder esperava escutar, D'us lhe fala: "Você vai continuar pedindo para mim?"

É óbvio que tudo o que fazemos depende Dele. De acordo com a tradição, "hakol min hashamaim" - "tudo vêm dos céus". É indiscutível que devemos rezar muito pedindo que todos nossos planos e ações tenham sucesso. No entanto, a nossa parte deve ser feita. Em condições normais, se não houver um shaliach, um executor no plano físico, as coisas não se desenvolvem e o mundo não roda. Além de ficar somente pedindo, devemos lembrar que a vontade Dele é que nós sejamos Seus parceiros; que a gente também ponha a mão na massa e consiga atingir os objetivos, em todos os planos, na construção de uma vida melhor, e então de uma sociedade melhor e, por fim, de um mundo melhor.