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quarta-feira, 10 de junho de 2009

Cuidado no Alerta

Uma das coisas que mais incomoda quem deseja agir corretamente é observar alguém próximo fazendo um determinado erro constantemente. No entanto, muitos se questionam qual o direito que possuem de intervir na vida alheia, e não se sentem confortáveis em conversar com o amigo e adverti-lo. Aos olhos da Torá, qual seria a ação correta? Devemos nos sentir livres de avisar nossos amigos caso eles não estejam no caminho mais adequado, devido ao medo de não se intrometer na vida de alguém, ou será que somos obrigados a (pelo menos tentar) mudar a situação? Vire as páginas, vire as páginas, porque tudo está Nela - na Torá. No livro de Vaikra encontramos que há uma mitsvá de advertir o próximo: “Hocheach tochiach et amitecha” - não só temos o direito, como também o dever. Além disso, na Ética dos Pais está dito: "e adquira um amigo". Nossos sábios explicam que a importancia de se ter um amigo por perto se deve ao fato de um não se sentir atraído pelo ietser hara e assim conseguir enxergar melhor a essência do erro que o outro estaria prestes a cometer, alertando-o antes que fosse tarde.
Até ai, muitos sabem que devem advertir, mas não sabem como fazê-lo. Mesmo com a intenção boa, acabam agindo da maneira errada – e as conseqüências podem ser piores do que a indiferença.
D’us nos dá o mandamento de amar o próximo. Não é por acaso que isso aparece exatamente no versículo seguinte ao que nos ensina sobre a advertência. Daqui tiramos a primeira lição. Assim como D’us quer o bem de todas suas criaturas, porque Ele ama a cada um e um, nós devemos ser também. Deve ficar claro, tanto para quem fala quanto para quem ouve, que a força motora dessa conversa deve ser a mais pura possível: o amor. Todo o approach e a maneira de se passar a mensagem devem ser feitos o mais carinhosa possível.
Mas muitos ainda assim não se sentem bem, alegando que o certo é relativo. Perguntam a si mesmos: "desde quando somos os donos da verdade?". Desde que recebemos a Torá. Com ela, temos certeza do que é certo errado, aos olhos Daquele que criou o certo e o errado. Qualquer advertencia deve ser feita livre de interesses pessoais, com base no certo absoluto - e não relativo.
Por fim, mais uma lição: da nossa lashon hakodesh. É sabido que todas as palavras do hebraico possuem seus sentido ligado a sua raiz gramatical. O verbo advertir, lehochiach, também significa comprovar. Não podemos falar de advertencia sem lembrar que devemos mostrar para a pessoa o motivo dela estar errada. Advertir alguém por um erro que ela sequer não sabe ou não tem noção da gravidade é querer ensinar a atirar no escuro.
Que com se apoiando na base da Torá - o amor- possamos iluminar aqueles que estão a nossa volta, além de obviamente saber aceitar críticas construtivas da maneira adequada. Só assim poderemos ter um mundo mais correto, mais justo, e principalmente com o objetivo de toda a criação: o amor entre as pessoas.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Helenização? Não, obrigado

Em um país como o Brasil, é interessante ver quanta gente diferente convive junto. No meio universitário, isso é reforçado pelo número considerável de alunos de pós-graduação que saem de seus países ou por alunos de intercâmbio. Ontem tive a oportunidade de conversar com uma professora, que me explicou o motivo de seu sobrenome um tanto diferente: seu pai é de origem grega. Até ai, tudo bem.
Papo vai, papo vem, ela conta que já esteve em Israel. Até ai, tudo bem. Afinal de contas, não são raros congressos mundiais em Israel (isso sem falar nas universidades de ponta que existem por lá). Quando perguntei quais cidades ela visitou, logo disse: Holon, Hevron, além das óbvias Jerusalém e Tel Aviv, entre outras. Origem grega?
Sim. O problema é que só seu pai. Sua mãe é judia, e portanto, ela também. Ao perguntar se ela sabia que era judia, ouvi um "já ouvi dizer por ai" bem despreocupado. Quantas pessoas, assim como ela, devem existir só aqui no Brasil, que são iehudim e não sabem? Quanto disperdício. Possuímos uma das mais antigas culturas do mundo, temos o copyright do livro mais vendido no mundo, e muitos por ai nem dão valor. Não consigo imaginar o número de iehudim que sabem e não dão valor, e muito menos imaginar outro número, maior ainda: o de iehudim que nem sabem de sua essência. Tanta dor não entra na minha cabeça.
O que sim está na minha cabeça é a resposta para isso: enquanto não estivermos todos em Erets Israel, e ("e", não ou) seguindo nossos princípios milenares, estaremos sujeitos a ver a próxima geração com sobrenomes um tanto diferentes.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Lag Baomer: mais de vinte séculos, lições atuais

Hoje é Lag Baomer, o trigésimo terceiro dia da contagem entre Pessach e shavuot. Foi no mesmo dia que hoje que pararam de morrer, há quase dois mil anos, os alunos de Rabi Akiva pela falta de respeito um com o outro. É hoje também o aniversário de morte de Rabi Shimon Bar Iochai (um dos 5 alunos que sobraram de Rabi Akiva após a peste). Ele foi o autor do livro base da tão comercialmente explorada kabalá, e quis que seu aniversário de morte fosse comemorado com muita alegria.

Um dos símbolos que representa este dia é o arco e flecha. A explicação para isso é que na época de Rabi Shimon Bar Iochai os judeus eram proibidos de estudar Toraá Como é impossível um judeu se desligar da Torá, eles A estudavam escondidos. Quando os guardas do imperador vinham ver o que estavam fazendo, sacavam cada um seu arco e flecha e fingiam estar treinando.
Mas o arco e flecha não nos passa somente a mensagem da resistência espiritual (e hoje em dia, da liberdade e da vitória do povo judeu sobre aqueles que tentaram destruí-lo). Ele transforma toda a energia potencial em movimento. Quanto mais pra trás a flecha vai, maior é a distância que ela alcança. Quanto mais esticada a corda, mais energia armazenada.

O mesmo vale para cada um de nós. Quanto mais afastada do judaísmo uma pessoa é, maior é seu mérito ao cumprir qualquer mandamento, e maior é sua recompensa. Nós vivemos distantes de Israel, no "fim do mundo à esquerda" do judaísmo, e convivemos com tantas outras culturas. Cada pequena mitzvá cumprida, justamente por ser mais difícil e suada, é muito mais considerada, e suas consequências, físicas ou não, conseguem chegar muito mais longe.
Dessa maneira, o arco e flecha também simboliza esperança. O judaísmo não vê o sofrimento/dificuldades de forma negativa: D'us faz tudo para o bem, com o objetivo de transformar a pessoa, buscando um crescimento pessoal (leia "Eu quero! Eu quero!"). Que quando 'nossas cordas estiverem esticadas', olhemos um pouco para o futuro, imaginando a flecha indo bem longe, e assim recebendo mesmo as dificuldades com amor a D'us.

domingo, 29 de março de 2009

Mais de 1000 dias no cativeiro


Semana passada e essa semana houve uma grande decepção em Israel. Todos acreditavam que o Guilad Shalit (sequestrado pelos terroristas palestinos há quase 3 anos) iria voltar para casa. As negociações com o Hamas (através de um intermediador egípcio, no Cairo) duraram várias semanas mas terminaram no nada. Os palestinos subiram as suas exigências até um ponto que Israel não estava disposto a pagar.

Passei por uma tempestade: entre a razão e a emoção. A dor e a tristeza que causam o cativeiro de um irmão é difícil de ser medida. Com certeza o Hamas não se preocupa em tratar do Guilad de acordo com as convenções internacionais, e só D-us sabe como eu ficaria feliz de vê-lo voltar para casa. Porém a minha razão fez festa.

A decisão de sentar para negociar com o Hamas foi errada desde a raiz, assim como também foi a negociação que fizemos com o Hezbolá há alguns meses (quando recebemos os cadáveres dos dois soldados que perdemos no início da guerra do Líbano: Ehud Goldwasser e Eldad Reguev). Qualquer negociação om grupos terroristas tem consequências desastrosas.

A Mishná define uma regra clara. Apesar de que resgatar judeus cativos nas mãos de goim é a mitzvá mais importante da Torá, existe uma proibição de resgatá-los por um preço maior do que o seu valor de mercado (a Mishná se refere a uma época na qual cativos de guerra eram vendidos como escravos). O motivo: Tikun Haolam (o conserto do mundo).

A Mishná vem nos ensinar que apesar da dor que existe no cativeiro de um judeu somos proibidos de permitir que ela cale a nossa razão. Caso paguemos preços extorsivos e provemos que o sequestro de judeus é lucrativo e rentável, viramos vítimas de extorsões. Caso cedamos às exigências do Hamas, teremos uma epidemia de sequestros de soldados. Baseando-se nisso, muitos defendem que é necessário manter o princípio da proporcionalidade. Um soldado por um prisioneiro (e não 1 por 400 conforme os Hamas exige) e vivos por vivos (e não prisioneiros vivos por cadáveres igual fizemos com o Hezbolá no ano passado).

Porém acredito que nas circunstâncias atuais é proibido até mesmo uma negociação proporcional. Porque não se trata de uma comunidade judaica no meio da diáspora que não tem opção fora a pagar o resgate (que é o caso descrito pela Mishná). Aqui se trata de um país que dispõe de uma infinidade de meios de lidar com os palestinos. Nesse caso responder proporcionalmente é ceder a chantagem.

Israel não pode sentar para negociar com uma organização que lhe nega o direio de existência. Isso não é proporcional; não é simétrico. Israel pode cortar o suprimento de petróleo, eletricidade, bens humanitários, e água para pressionar o Hamas. Israel pode prender toda a cúpula do Hamas igual já fez em algumas ocasiões e trocá-la pelo Guilad. Israel não pode permitir ser pressionado; Israel deve pressionar. Por isso critico a açào da mídia e de todos aqueles que organizaram passeatas e manifestações pressionando o governo israelense a ceder nas negociações com o Hamas. Eu também quero o Guilad de volta, mas o slogan que foi bramido em Israel “a qualquer custo” é criancice.

Aliás, deixando todas as considerações de chantagens políticas de lado, a mais simples aritmética condena a liberação de terroristas. Já foram mortos mais de 1500 judeus por prisioneiros árabes que foram libertados por Israel devido a negociações ou como demonstração de boa vontade. Atualmente os jornais focam a família do Guilad e a sua dor. Só que eles não focam a dor de 1500 famílias que perderam os filhos devido a esse tipo de acordo. Queira D-us iluminar os nossos líderes para que não cedam a pressões (internas e externas) e tragam os cativos de volta para que possamos cantar com eles no seder de Pessach “avadim hainu... ata bnei chorin” - fomos escravos... agora, homens livres.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Just do it

Ninguém gosta de ouvir promessas que não se cumprem. Certamente você já reencontrou com aquele amigo de infância e depois dos caloroso cumprimentos e de se lembrar de velhas histórias, combinaram de sair. No final, deve ter escutado um "vamos sair, mesmo!" ou um "pode deixar que eu te ligo!". Passa o tempo, vocês se encontram novamente em alguma festa e se lembram que o combinado não saiu de suas mentes...
Já estávamos 4 shabatot falando sobre a construcao do mishkan. Nas parashiot anteriores, D'us passa para Moshe todos os detalhes da magnífica obra. Na parasha de pekudê, lemos que Moshe e Am Israel fizeram de acordo com o ordenado por D'us. No entanto, ao invés de economizar parágrafos e capítulos, falando simplesmente "e Moshe fez de acordo com o ordenado", todos os detalhes são repetidos: roupas dos cohanim, cortinas, paredes, os ganchos para estender sobre as cortinas, e os utensílios, entre outras coisas. Tim tim por tim tim, novamente.
Se planejar algo e colocar em prática fosse a mesma coisa, não haveria necessidade de repetir cada vírgula da construção do mishkan. Isso vem nos mostrar que, pelo judaísmo, a teoria e a prática são coisas completamente distintas. Apesar de serem extremamente ligados e dependentes, o momento do planejamento teórico é um, e o da execução é outro. Cada um tem seu valor independente, e por isso, no judaísmo, mesmo que não se entenda algum conceito ou alguma mitsvá perfeitamente, ganhamos sua recompensa somente por realizá-la. É sabido também que todo o objetivo final de estudar Torá é trazê-la ao mundo físico, e transormá-lo, através de mudanças e ações, seja no relacionamento com si mesmo, com os outros ou com D'us.
Aqueles que fazem mais do que falam estão no caminho certo. Como dito em Pirkei Avót (Ética dos Pais), "Emor meat, vaasse harbe" - fale pouco e faça muito.

terça-feira, 24 de março de 2009

Livros ambulantes

Me canso de algumas coisas no meio acadêmico. Apesar de ter contato com professores super simpáticos, não aguento mais ver aqueles pH.D's que sabem muito sobre suas áreas de pesquisa, mas sequer sabem se relacionar com seus alunos. Publicam vários artigos por ano, mas não sabem agradecer os faxineiros que possibilitam a limpeza em seus laboratórios; dão palestras em mega congressos, mas se esquecem que cada um que está lá o admira; trabalham com genes, proteínas, números e exames, mas esquecem que tratam de pacientes.
Na última semana, lemos sobre a construção do mishkan. D'us ordena a Moshe que aqueles que deveriam construí-lo fossem chacham lev - inteligentes do coração. A princípio, muito contraditório. A inteligência é representada pelo cérebro, enquanto que o coração representa os sentimentos. Aparentemente, uma coisa nada tem a ver com a outra, já que para transformar a materia prima no produto final, para construir algo físico, somente o conhecimento técnico é necessário.
No entanto, a própria história do nosso povo nos mostra que o conhecimento não é somente uma coleção de ideias e conteúdo. Como realizadores do holocausto, engenheiros civis construíram câmaras de gás e crematórios, químicos desenvolveram o gás zyklon B, conhecedores de conceitos médicos (que jamais podem ser considerados médicos) faziam experimentos (?!) com seres humanos. Eu poderia dizer que todo o conhecimento que eles possuíam foi jogado fora, desperdiçado, mas isso seria um erro. Pior do que desperdiçar um recurso é utilizá-lo para um fim indevido.Até o momento em que alguém inteligente a utiliza para fazer o bem, de nada vale seu conhecimento. Afinal de contas, no campo prático, o inteligente que não faz o certo e o bobo que também não faz o certo, estão na mesma. Um burro de carga que carrega uma pilha de livros em suas costas continua sendo um burro de carga.
Cada chacham lev foi escolhido porque sabia conciliar seu conhecimento ao comportamento e às relações humanas. D'us não queria de forma alguma que sua morada fosse construída por pessoas que, por mais que fossem geniais e fizessem o trabalho da melhor maneira possível, não soubessem se relacionar uns com os outros. Devemos aprender com eles e proceder da mesma maneira. Devemos fazer com que a distância de 20 cm entre o coração e o cérebro se torne menor ainda.

segunda-feira, 16 de março de 2009

A grande mistura

Para uma pessoa religiosa, eu diria que eu sou uma pessoa que mantém bastante contato e troca ideias com pessoas não tão próximas do judaísmo. Vira e mexe, escuto um forte questionamento: por que há tanta divisão entre os religiosos, e mais ainda, entre eles e o não religiosos? Será que isso é certo?
A parashá que lemos anteontem conta alguns detalhes do mishkan, entre eles o ktoret (incenso) que era queimado todo dia. No total, 11 ervas compunham sua receita: dez delas com aromas agradáveis, e uma delas com um cheiro não tão gostoso. Não seria estranho, num lugar de tanta beleza (como comentamos aqui), no lugar onde a schiná (presença divina) estava presente (!), colocar uma essência assim?
Nossos sábios comentam no Talmud que isso era um exemplo perfeito de como deveria ser o comportamento do povo. Mesmo com todas as diferenças entre pessoas com estilos de vida variados (e até opostos), todas devem estar juntas, com o mesmo objetivo: assim como os ingredientes do ktoret estavam. E nem por isso a essência excêntrica era deixada de lado. Hoje em dia, vale o mesmo. Pessoas não tão próximas da Torá, religiosos, pessoas que pensam diferente, desconfiados, pessoas com dúvidas e questionamentos: todos devem estar juntos e lembrar que pertencem à mesma raiz.
No entanto, não digo que esse contato deve ser feito de qualquer jeito: a identidade judaica estar firme o suficiente (e aí por sua conta e risco) para uma interação saudável. Conheço pessoas que saíram de repente da "bolha" e acabaram se perdendo. Mas se você vir uma pessoa que se diz religiosa e possui um tratamento pejorativo com aqueles que não se dizem religiosos, questione seu comportamento se baseando no ktoret, e veja se ele possui uma resposta válida.

terça-feira, 10 de março de 2009

A consciência judaica

O exílio físico e espiritual do povo judeu tem dois grandes marcos: um no seu início (após a destruição do primeiro Beit HaMikdash) e um no seu final (antes da declaração da independência de Israel). O primeiro desses marcos foi Purim, quando foi frustrada por completo a tentativa de aniquilar o povo judeu. O segundo foi a Shoá, quando infelizmente, essa tentativa foi frustrada mais tarde do que devia.

O denominador comum entre os dois eventos foi o fato de um império de dimensões mundiais (o império Persa se alastrava desde as portas da Índia até o Egito, e a Alemanha nazista tinha pretensões não muito menores), sob cujo domínio vivia boa parte do povo judeu (no caso da Pérsia, literalmente todo o povo), declarar os judeus como inimigos nacionais passíveis de aniquilação.

De acordo com a Guemará, os judeus na época de Purim foram punidos (correndo risco de extermínio) porque participaram do banquete de Achashverosh. O rabino Shlomo Elkabatz (o autor do Lecha Dodi) escreveu o mais belo livro existente sobre a Meguilat Ester (o nome do livro é Matanot Levi). Nele ele explica que toda a comida da festa dada por Achashverosh era 100% Casher, e os judeus da época viram isso como uma autorização par tomarem parte nela. “Afinal de contas, se a comida é Casher qual é o problema?”

Essa observação feita pelo rav Elkabatz levanta uma pergunta pertubadora: então, pelo amor do bom D-us, qual foi o grando problema dos judeus terem participado da festa de Achasverosh? O problema é que o intuito dessa festa era divulgar a supremacia dos Persas sobre todas as outras nações conquistadas por eles, inclusive Israel. A Guemará descreve que Achashverosh fez questão de utilizar os utensílios do Beit HaMikdash na festa. Porém esse não era o motivo oficial da festa. Isso era apenas um ponto secundário na festa. Exatamente por isso os judeus se deram ao privilégio de ignorá-lo.

Essa é a maior paródia do judeu da Galut. A comida Casher é imprescindível, porém o desprezo pelo Templo pode ser ignorado. O, assim conhecido, judaísmo “do estômago para baixo” expressa a cabeça da Galut. Esse judeu pode se preocupar com todas as minúncias da Halachá, mas esquece do espírito que há por trás dela. Ele pode saciar a sua sede espiritual fechando-se em si mesmo e ignorando o que acontece ao seu redor. “O importante é que a comida do meu prato seja Casher”

Purim foi uma lição que nós precisávamos aprender no começo da Galut (infelizmente ainda não a assimilamos totalmente): judaísmo não é apenas religião. Não é possível ser um bom judeu ignorando o que acontece ao meu redor. Não nos é permitido fechar os olhos às afrontas que ocorrem ao nosso redor. Nós não podemos ignorar a nossa dimensão nacional.

Essa é parte do libelo de Haman e de Hitler: não importa o que o judeu faça ele sempre será um povo diferente dos outros, ainda que ele pise e sapateie sobre as sua mitzvot. Mesmo na Galut o judeu possui uma dimensão nacional e ai dele se esquecer disso. Ao entender isso o judeu fortalece as suas duas dimensões: tanto a religiosa como a nacional. Ele entende que é impossível dissociar a Torá do mundo real; externo. D-us escreve reto por linhas tortas, e sem dúvida parte da função da Galut é fortalecer a nossa identidade nacional.

Não somos uma nação como todas as outras. Graças a Torá nós somos capazes de sobrevivermos mesmo no exílio, longe da pátria. Porém não somos uma religião como todas as outras. Graças a Torá somos capazes de nos reunirmos ao fim do exílio de volta a nossa pátria.

terça-feira, 3 de março de 2009

Ninguém nos apaga

Como escrevemos aqui, a última quarta-feira foi rosh chodesh adar, e também fez um ano (pelo calendário hebraico) do atentado a yeshivá de Merkaz Harav.
A data foi lembrada, na mesma yeshivá, de forma muito bonita e de um ponto de vista . Ao invés de expressar ódio e outros sentimentos de vingança, a última quarta foi marcada por muito amor: oito novos sifrei Torá foram doados, cada um em memória a um estudante assassinado. Amor pela Torá, amor por Am Israel, amor por Eretz Israel. Foi demonstrado, mais uma vez, que a fonte inesgotável de sabedoria e alegria do povo judeu nunca poderá ser apagada da face da terra. Podem tentar nos apagar quantas vezes quiserem - mas escreveremos a nossa essência quantas vezes for necessário.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Paisagens


O ser humano é suscetível a influências do ambiente no qual ele se encontra. Consciente ou inconscientemente o nosso estado de espírito depende do cenário no qual nos encontramos. As pessoas podem responder a esses estímulos de muitas formas, mas o sentimento provocado por um dia nublado, cinza, não pode ser o mesmo que é provocado por um dia com o céu azul. De acordo com o judaísmo, a visão do céu recorda a alma a visão do trono celestial de D'us. O céu descoberto, sem núvens, é um convite para ligar-se ao infinito.
Um componente importante desses fatores aos quais somos suscetíveis é a paisagem. Quando estamos no pico de uma montanha há a sensação de ter o mundo nas nossas mãos, uma sensação de liberdade. Por outro lado, quando estamos no fundo de um vale, com o horizonte bem alto, experimetamos um sentimento de introspecção. (Aliás esse contraste entre montanhas e vales é muito perceptível em Ierushalaim, e possui uma influência interessante sobre quem lá vive).
Mas há uma paisagem peculiar do Brasil que ainda não conhecia em Israel: a serra frente ao mar. Ter o mar a sua direita e uma parede verde a sua esquerda. É difícil descrever os meandros da alma humana, mas de alguma forma eu sentia saudades dessa paisagem (ou pelo menos eu descobri que sentia saudades dela). Porém é óbvio que D'us não iria negar um presente desse à Sua terrinha. Semana passada descobri que é possível descer e subir o Carmel de bicicleta desde o Technion (há uns 300 metros acima do nível do mar) até a praia de Cheifá. E o meu suor foi bem recompensado: eu encontrei a minha paisagem. Um dos “dedos” do Carmel (que é uma cadeia de montanhas que se estende no Galil ocidental, no norte de Israel) chega bem próximo ao Mediterrâneo. E lá me vi eu, com o mar a minha esquerda e a montanha verde à minha esquerda. Há uma tradição de que nesse trecho da montanha fica a caverna na qual o profeta Eliahu presenciou uma revelação de D'us. Hoje em dia um teleférico leva desde a praia até o topo da montanha (mas não dá pra colocar a bicicleta dentro dele).
Enfim, matei uma saudade que eu não sabia que existia. Aliás, acho que essa é parte da beleza de Eretz Israel: a diversidade geográfica desse canto do mundo não deixa nada a dever pra ninguém: num raio de 400 quilômetros é possível ir esquiar nas montanhas do Golan, montar a camelo no deserto do Neguev, flutuar no ponto mais baixo do mundo e ver os vinhedos nas encostas das montanhas de Iehudá. É como se aqui existisse um concentrado de todas as paisagens do mundo. Afinal de contas se cada paisagem está ligada com um sentimento, essa terra precisa ser rica o suficiente para preencher o coração de idealistas e sonhadores do mundo inteiro.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Cada coração é precioso


Demorou, mas aqui estamos novamente. Enquanto o povo tupiniquim sai da ressaca do carnaval, nós iehudim só estamos agora entrando no mês da alegria. Ontem foi Rosh Chodesh Adar, o primeiro dia de do mês em que é comemorado Purim. Como diriam nossos sábios, "quando começa Adar, aumenta-se a alegria".

Na parashá dessa semana, terumá, estão alguns detalhes técnicos do Mishkan, e também o mandamento de construí-lo: "Veassu li mikdash, veshachanti betocham" - "E vocês vão me fazer um santuário, e Eu morarei neles". Quem bate de relance na frase, acha que Moshé Rabenu cometeu um gravíssimo erro de concordância - um mikdash: morar nele e não neles.

Nossos sábios explicam que isso não foi nenhum erro gramatical, e mas foi um "erro" intencional. Essa contradição pode facilmente ser explicada. O mandamento de construir um santuário é valido para cada iehudi, e não somente naqueles velhos tempos. Isso se aplica em cada dia do século XXI: devemos trabalhar para lapidar individualmente o nosso próprio "santuário". Nossos corações devem ser aperfeiçoados a cada dia, devemos melhorar nossas midot (traços de caráter), devemos estudar Sua Torá e fazer o bem. Esse trabalho, em cada caso particular, pode ser até mais difícil do que construir aquele antigo e enorme templo físico. Somente assim, com muito esforço e dedicação constantes, a promessa é cumprida: Hashem poderá morar nos nossos corações.

Partindo da parashá da semana, chegamos no assunto da semana - e nada é por acaso. No Rosh Chodesh Adar do ano passado aconteceu uma grande tragédia para Am Israel: um terrorista palestino (com cidadania israelense!) assassinou oito adolescentes que estudavam na famosa yeshivá de Merkaz Harav. Esses oito jovens valiam, cada um, tanto quanto um Mikdash vale para nosso povo. Após um ano desse trágico acontecimento, nos aproximamos mais uma vez da festa de Purim. Esperamos que, do mesmo jeito em que (com muito esforço e crescimento não físico) a tristeza dos tempos de Mordechai foi transformada em alegria, possamos superar a dor e atingir a verdadeira felicidade do mês de Adar.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Nigun Cracow

Coloco aqui um vídeo que conta a história sobre a origem de um nigun (música que não contém letra alguma, mas somente uma melodia). Em geral, os nigunim conseguem mexer muito com os sentimentos e emoções. O nigun em questão leva o nome da cidade onde foi criado, Cracóvia. A versão deste clipe é um pouco diferente dos nigunim tradicionais, que são em geral cantados (e não possuem solos de guitarra e viradas de bateria tão 'modernos'...).

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Mastros no Mar Vermelho

Para nós, yehudim, globalização não é uma novidade. Judeus de todos os cantos do mundo vivem em sincronia, através de um mesmo calendário e um mesmo estilo de vida. É exatamente essa característica que ajuda a absorção de um yehudi em qualquer canto do mundo: sempre é possível encontrar algo que relembre a nossa casa (as mesmas rezas, os mesmo livros, os mesmos costumes, e até mesmo as mesmas piadas).
Porém existem diferenças, especialmente em Israel. A vida judaica aqui adquire um caráter nacional, o que a enriquece muitíssimo. Shabat passado lemos na Torá o "Az iashir" - a canção que o povo judeu cantou após a abertura do mar Vermelho, comemorando e agradecendo a bravura de D'us. Entre outras coisas que lembramos nessa canção está o conhecimento de que D'us é Aquele que guerreia por nós. "HaShem ish milchama, HaShem shemo". "D'us é um homem de guerras, D'us é o seu nome". Na continuação da parashá também lemos sobre a primeira guerra (e consequentemente, a primeira vitória) propriamente dita do povo judeu: a guerra contra Amalek.
Aproveitando esse cenário de fundo, o rabinato chefe de Israel decretou que esse Shabat seria dedicado para agradecer a D'us pelos milagres que Ele realizou nessa última guerra, no mês passado, em Gaza. Passei o Shabat em Kriat Arba, ao lado de Chevron. Após a reza de Kabalat Shabat e Arvit, fomos jantar com a família, e depois, mais tarde voltamos a sinagoga para cantar algumas músicas (conhecidas pelos sefaradim como "Bakashot"). Após aquecermos as gargantas, preparamos os ouvidos para escutar as histórias de alguns soldados que estiveram em Gaza.
Não importa quantos milagres escutemos, sempre é chocante escutá-los de primeira mão. Um soldado comentou que em um dado momento, na primeira semana da guerra atiraram granadas contra o seu destacamento. Ele contou, que ele próprio foi pego de surpreso e não teve reação naquele instante. Porém as granadas não explodiram. Outro deles contou que o seu destacamento havia sido designado para invadir Gaza na primeira noite da guerra, porém por problemas técnicos a invasão foi adiada até a manhã seguinte. Conforme os soldados foram avançando no dia seguinte, puderam distinguir fios elétricos espalhados no meio do vinhedo por onde eles avançavam. Assim que se deram conta, começaram a recuar: explosivos. Quando haviam conseguido atingir uns 100 metros de distância, escutaram as cargas explodindo: 7 delas de vários lugares simultaneamente. Ele contou que vários soldados foram jogados ao ar devido a força da explosão (e muitos viram as armas escaparem de suas mãos), porém apenas dois se feriram levemente. Seria impossível distinguir os fios no meio da noite.
Outro soldado contou que o seu comandante, não religioso, chegou para o seu destacamento no primeiro dia da guerra com um pacote cheio de tzitziot: "Ninguém entra em Gaza sem vestir um tzitzit antes! Isso irá nos proteger!". De acordo com ele, inclusive dois soldados voluntários peruanos (que não eram judeus) também vestiram os tzitziot. No fim do segundo dia dos combates quando puderam descansar, puderam perceber que havia furos de balas nas suas armas (no "cat", a parte de trás do fuzil, que é apoiada no ombro, a alguns centímetros da carótida e da jugular).
Milagres atrás de milagres... A palavra para milagre em hebraico é "nes". "Nes" também significa mastro. Algo que pode ser visto à distância. Através dos milagres, D'us acena para todos que ele está ali atrás.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Mãos à obra!

É nessa semana que se conta sobre a saída do Egito e sobre a abertura do Iam Suf. Li um dos comentaristas falando que no momento em que o mar se abriu, todas as águas do mundo se dividiram em duas. Fiquei imaginando como seria beber um copo de água aqui no Brasil, como seria Michael Phelps terminando um revezamento em Pequim e a situação de desespero no Sea World, em Orlando, entre outras viagens.

Voltando à realidade, uma passagem merece destaque. Assim que soube que Am Israel ainda estava próximo, o Faraó resolveu voltar atrás de sua decisão, e pegar todo o povo e tudo o que tinham levado. Assim, Am Israel ficou encurralado e, no desespero, reclamaram ao seu líder Moshe. Mesmo sabendo que todos iriam se salvar (e que, para que isso acontecesse, teria que andar em direção ao mar), Moshe resolveu rezar para D'us. Como uma resposta diferente do que nosso líder esperava escutar, D'us lhe fala: "Você vai continuar pedindo para mim?"

É óbvio que tudo o que fazemos depende Dele. De acordo com a tradição, "hakol min hashamaim" - "tudo vêm dos céus". É indiscutível que devemos rezar muito pedindo que todos nossos planos e ações tenham sucesso. No entanto, a nossa parte deve ser feita. Em condições normais, se não houver um shaliach, um executor no plano físico, as coisas não se desenvolvem e o mundo não roda. Além de ficar somente pedindo, devemos lembrar que a vontade Dele é que nós sejamos Seus parceiros; que a gente também ponha a mão na massa e consiga atingir os objetivos, em todos os planos, na construção de uma vida melhor, e então de uma sociedade melhor e, por fim, de um mundo melhor.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Homens livres e shlichim

Aqui em Israel estamos no meio de uma guerra diplomática que foi aberta em várias frentes. Expulsamos o embaixador da Venezuela ontem (depois que o Huguito expulsou o embaixador israelense e vários shlichim da agência judaica de Caracas há algumas semanas). Fizemos com que o primeiro ministro turco abandonasse o fórum em Davos (depois de reafirmarmos o nosso direito a auto-defesa). E estamos pensando em alguma resposta para a decisão espanhola de processar oficiais do exército israelense por crimes de guerra (talvez seja essa a hora de pedir indenizações pelos judeus que os malditos avós dos espanhóis queimaram nas fogueiras da inquisição. Acho que isso configura um crime contra a humanidade, não?).
Enfim, espero que a vitória diplomática de Moshê no Egito (valendo-se de todos os meios de pressão disponíveis) na parashá dessa semana, possa nos iluminar.
Aliás, é nessa parashá que Moshê abre o segundo front de sua guerra: como tirar o Egito de dentro dos judeus. Como fazer com que 600 mil pessoas abandonem uma mentalidade de escravos?
A primeira medida (ou mitzvá, no vocabulário da psicologia do Tanach) foi o mandamento de santificar meses. No judaísmo os meses são lunares (numa antítese ao calendário egípcio pagão, baseado no sol), e quem declara o nascimento do mês é o tribunal central (que ficava ao lado do Beit HaMikdash) com base em testemunhas, que afirmavam terem visto a lua nova.
Ou seja: homens livres devem saber que eles tem o tempo em suas mãos. Somos nós que instituímos o nosso calendário (e consequentemente, as datas das festas, inclusive Pessach). Um escravo não precisa se preocupar com o relógio: o seu senhor se preocupa por ele. Mas nós somos homens livres, com todos os direitos e obrigações que isso implica.
A outra medida foi a instituição do Korban Pessach. Os judeus deveriam tomar um carneiro (que era idolatrado como deus pelos egípcios), amarrá-lo por 5 dias nos pés de suas camas, e sacrificá-lo e comê-lo no 5o dia. Que desparate aos egípcios! Onde já se viu? Matar e comer o deus alheio (ironia do destino: foi essa mesma acusação que a igreja católica carregou contra nós por 2000 anos). É verdade que devemos respeitar as idéias alheias, mas há um limite de quanto podemos tolerar – principalmente dentro de nossas casas.
Dentro de nossas casas nós somos soberanos, e não podemos aceitar qualquer influência cultural pagã. A ousadia é o contrário da submissão escrava.
Por fim. As leis do sacrifício de Pessach são a base do conceito de sociedade e “shlichut” (representação; procuração).
Duas famílias com poucos integrantes podiam dividir as despesas na compra de um único carneiro para ambas (a sociedade). E quando o representante da família sacrificava o carneiro, ele isentava toda a sua família da obrigação de sacrifício. Por mais que a Torá obrigou todos os judeus a sacrificarem carneiros, um único judeu podia representar e cumprir a obrigação de vários outros (que o nomeassem como “sheliach”). Nas palavras do Talmud: “Shlicho shel adam kemoto”. “O procurador de uma pessoa é como ela própria”.
Esses conceitos de sociedade e representação são a base do conceito de um povo e de uma nação. São a base de uma filosofia coletiva, onde existe um pacto social e uma obrigação mútua entre um grupo de pessoas. Parte do processo de virarmos indivíduos livres, é entendermos que fazemos parte de um povo, com o qual compartilhamos um passado e um futuro comum.
E é exatamente esse conceito que se esconde por trás de toda ofensa diplomática: quando o Chavez expulsa os enviados da Agência Judaica de Caracas, ele está enviando uma mensagem a todos os judeus do mundo, que são representado por eles. A mesma coisa com a decisão do juiz espanhol e os oficiais do exército de Israel. É exatamente por isso que a nossa resposta deve ser dura e exemplar. Por que nós somos homens livres.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Já está mais do que na hora de mudar

Na sinagoga, vemos essa semana que Moshe começa a luta para que os judeus saiam do Egito (valendo-se de meios diplomáticos e armas não convencionais). No jornal, os nossos soldados saíram de Gaza. Assim como o Faraó dava sinais de apaziguamento durante as pragas (e prometia libertar o povo judeu) mas depois voltava atrás, os palestinos também esquecem de quaisquer promessas e já aproveitam o atual período de trégua para se rearmarem. Infelizmente nós ainda não aprendemos a lição da História.

Aliás, os nossos sábios explicam que mais difícil que tirar o povo judeu do Egito, foi tirar o Egito de dentro do povo judeu. Em outras palavras: é difícil mudar a mentalidade de um povo que se acostumou a viver como escravo. Essa mentalidade explica o medo que o nosso povo teve de vir para Israel quando pecou com os espiões. O mesmo fenômeno ocorre hoje em dia. Temos o nosso país independente, mas ainda temos uma mentalidade dependente (como se diz em hebraico: "uma cabeça de exílio"). Desde que nossos soldados entraram em Gaza, Israel sofre muita pressão dos dirigentes, porém não respondemos a altura.

Por que quando a Rússia diz que "está preocupada com a situação humanitária em Gaza", não respondemos que "estamos preocupados com a situação humanitária na Chechênia"? Desde que começou a guerra, mandamos quase que semanalmente representantes ao Egito, que se enxerga como "o diplomata do Oriente Médio", para tratar sobre a "crise humanitária" e sobre o futuro controle na fronteira entre Gaza e o Egito. Por que o Egito não se deu ao trabalho de mandar uma única vez um representante a Tel Aviv? Aliás, por que nós não exigimos isso deles?

Há um consenso de que sempre que há uma negociação somos nós que devemos nos humilhar. Que o mundo pense assim é natural. Que nós concordemos com isso é assustador. Assim que saímos do Egito, D'us nos proibiu de voltar para lá (e esse é um dos 613 mandamentos). A partir da hora em que nos outorgaram a soberania, estamos proibidos de voltar a pensar como escravos. Nossos soldados deram a vida em Gaza para devolver a honra ao nosso Estado, e é imperdoável que nossos líderes joguem ela pela janela a troco de nada.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Tá se escondendo do que?

Pare para pensar em quem foi Moshe. Aquele que cresceu no palácio do Faraó e manteve sua personalidade judaica. Aquele que foi a pessoa mais humilde a existir na face da Terra. Foi Moshe quem mostrou ao Faraó quem manda no mundo, foi Moshe quem D'us escolheu para abrir o mar. Ele conduziu o difícil e teimoso Am Israel no deserto durante 40 anos (eu não aguentaria nem um ano em qualquer cidade desenvolvida...). Por fim, mais do que tudo, foi ele quem ouviu e aprendeu toda a Torá (tanto a escrita como a oral) da 'boca' de D'us. Cada um desses motivos já seria suficiente por si só para mostrar sua grandeza. Imagine dois deles juntos, agora três, e agora todos eles juntos. Agora eu te pergunto: como é que uma pessoa dessa grandeza moral/espiritual foi proibida por D'us de entrar na prometida e esperada eretz Israel?!
Uma das respostas está na parashá que lemos na semana passada (eu sei que já postamos algo aqui, mas nunca é tarde, nem demais...). Moshe fugiu do Egito, foi para Midian, e lá ajudou as filhas de Itró. Elas o chamam para comer em casa, e quando o pai pergunta quem as ajudou, elas dizem que foi um tal egípcio. Na frase seguinte, lemos que Moshe já estava contente ao se sentar com Itró.
Para qualquer um de nós, não parece nada de grave. Mas para alguém do nível de Moshe, não fazer questão de corrigir as meninas e dizer "ei, egípcio não! Judeu!" foi um tremendo de um erro - e talvez por isso foi castigado e proibido de entrar em eretz Israel. É claro que tudo tem sua hora e não devemos falar qualquer coisa em qualquer momento. Mas em alguns casos do cotidiano não devemos ter medo nem vergonha de assumir a identidade do povo a que pertencemos.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Parashá stuma

Amanhã é dia de falar chazak chazak venitchazek: terminamos a leitura de Bereshit desse ano. Aportuguesando, 'muito bem'. A última parashá do primeiro chumash é vaiechi, onde são contados os últimos momentos de Itschak. Todas as parashiot são separadas entre si por espaços de 9 letras, ou começam na linha seguinte. No entanto, essa é a única entre todas as 54 que não é separada - é uma parashá stumá, em hebraico, fechada.

Nossos sábios z"l explicam que o motivo é simples: com a morte de Yaakov, os olhos e corações dos seus filhos se fecharam. Eles não deram importância para as últimas palavras da parashá anterior, que diziam que os filhos de Yaakov (ou Israel) - literalmente, bnei Israel - já tinham muitas terras no Egito. Não somente tinham parte na terra do Egito, física, como também já estavam por dentro da cultura local, espiritual. Em outras palavras, estavam começando a se assimilar e esquecer dos princípios e ideais que aprenderam com o pai. Se estivessem com os olhos mais abertos, iriam ver que a escravidão não era algo tão distante - foi somente uma consequência.

Se eles fecharam os olhos para uma coisa que estava por vir, e se deram mal, a gente tem que aprender a ficar esperto também. O que falar então das situações em que as coisas estão claras, em baixo do nariz, e a gente nem percebe que a solução está bem ali? Basta abrir os olhos e encontrar a resposta.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Moral 100%

Minhas desculpas porque justamente na semana mais agitada desde que cheguei em Israel não pude escrever nada. O motivo: estive acompanhando um grupo de brasileiros como guia turísitico durante esses dias (uma das formas como um olê pode garantir o seu sustento nesse país de estrangeiros).

O rav Kook escreve que as guerras tem a capacidade de trazer a tona as características mais profundas de cada povo. A guerra é uma situação extrema onde cada povo tem a oportunidade de demonstrar quais são os seus valores mais profundos. Com toda a dor que existe em uma guerra, é lindo ver a força e a coragem que o povo judeu demonstra. Assim que começou o bombardeio a Gaza e foram lançados foguetes a Israel em resposta, várias famílias que vivem no centro e no norte de Israel anunciaram que estavam de portas abertas para receber famílias do sul que quisessem abandonar a zona de fogo durante a guerra. Porém mais bonito ainda foi ver a resposta das famílias do sul: "Nós não iremos abandonar as nossas casas!". Que povo tào especial é esse que está disposto a arriscar as vidas por esse pedaço de terra. Não estamos falando de soldados, mas de famílias de civis que entendem que eles também fazem parte da guerra, e que a coragem que eles demosntram é a maior derrota dos palestinos.

O Hamas acredita que Israel é uma sociedade que perdeu o idealismo e se rendeu ao consumismo ocidental descomprometido de quaisquer valores e ideais. Eles acreditam que os israelenses de hoje em dia não estão dispostos a sacrificar a sua qualidade de vida pelo ideal sionista. Eles acreditam que se nos bombardearem um pouco e dificultarem as nosssas vidas nós batiremos em retirada e abandonaremos esse canto do mundo. Essas famílias do sul mostraram que eles estão errados. Essa guerra que começou em Chánuka, iluminada com o fogo dos chashmonaim é uma prova de que o nosso povo é forte e corajoso e está regado por ideais.

Ontem as tropas terrestres invadiram a faixa de Gaza, iniciando uma nova fase nessa guerra que irá trazer de volta o orgulho aos habitantes do sul de Israel. Cada um dos soldados está lutando uma batalha pelo Kidush HaShem. Cada um deles está lutando para deixar claro que nós somos os soberanos dessa terra por direito e que nós não iremos abaixar a nossa cabeça para ninguém entre o Jordão e o Mediterrâneo. Que D'us encha o coração de nossos líderes, soldados e habitantes de coragem e bravura, e proteja a todos nós.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Nada de estardalhaço

No desenrolar dessa parashá, Mikets, Yossef sai da prisão em que esteve por dois anos e desvenda os sonhos do Faraó. Por acertar na mosca, vira nada mais nada menos do que o vice-presidente do Egito, o mão direita do Faraó. Como previsto nos sonhos, se iniciam os anos de miséria após os sete anos de fartura. Todos ficam sem alimentos - fora o Egito, que armazenou muita coisa dos tempos de vacas gordas (será daqui, do sonho do Faraó, a expressão usada nos dias de hoje?).

Muito distante geograficamente, mas também em crise, Yaakov manda seus filhos descerem ao Egito para comprarem a comida lá guardada. Nossos sábios fazem questão de ressaltar que os dez irmãos foram recomendados por seu pai a entrarem na cidade dispersos, cada um por um portão. O motivo é simples. Um gringo já chama atenção. Dez estrangeiros andando juntos chamam muita atenção. Dez estrangeiros com dinheiro andando juntos chamam muito mais atenção.

A Torá não é um conjunto de informações históricas para divertir as crianças ou nos entreter. Não é uma novela dividida em capítulos. Ela não é algo distante ou inatingível: nos foi dada para que cada um de nós possa aprender com seus ensinamentos do dia-a-dia e de comportamento. Modéstia, humildade, simplicidade, fugir da exibição, tsniut (ser discreto). Essas são características que todo Iehudi deve aprender com a história de seu povo e aplicar na própria rotina, sendo traços inseparáveis de sua essência.