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terça-feira, 10 de março de 2009

A consciência judaica

O exílio físico e espiritual do povo judeu tem dois grandes marcos: um no seu início (após a destruição do primeiro Beit HaMikdash) e um no seu final (antes da declaração da independência de Israel). O primeiro desses marcos foi Purim, quando foi frustrada por completo a tentativa de aniquilar o povo judeu. O segundo foi a Shoá, quando infelizmente, essa tentativa foi frustrada mais tarde do que devia.

O denominador comum entre os dois eventos foi o fato de um império de dimensões mundiais (o império Persa se alastrava desde as portas da Índia até o Egito, e a Alemanha nazista tinha pretensões não muito menores), sob cujo domínio vivia boa parte do povo judeu (no caso da Pérsia, literalmente todo o povo), declarar os judeus como inimigos nacionais passíveis de aniquilação.

De acordo com a Guemará, os judeus na época de Purim foram punidos (correndo risco de extermínio) porque participaram do banquete de Achashverosh. O rabino Shlomo Elkabatz (o autor do Lecha Dodi) escreveu o mais belo livro existente sobre a Meguilat Ester (o nome do livro é Matanot Levi). Nele ele explica que toda a comida da festa dada por Achashverosh era 100% Casher, e os judeus da época viram isso como uma autorização par tomarem parte nela. “Afinal de contas, se a comida é Casher qual é o problema?”

Essa observação feita pelo rav Elkabatz levanta uma pergunta pertubadora: então, pelo amor do bom D-us, qual foi o grando problema dos judeus terem participado da festa de Achasverosh? O problema é que o intuito dessa festa era divulgar a supremacia dos Persas sobre todas as outras nações conquistadas por eles, inclusive Israel. A Guemará descreve que Achashverosh fez questão de utilizar os utensílios do Beit HaMikdash na festa. Porém esse não era o motivo oficial da festa. Isso era apenas um ponto secundário na festa. Exatamente por isso os judeus se deram ao privilégio de ignorá-lo.

Essa é a maior paródia do judeu da Galut. A comida Casher é imprescindível, porém o desprezo pelo Templo pode ser ignorado. O, assim conhecido, judaísmo “do estômago para baixo” expressa a cabeça da Galut. Esse judeu pode se preocupar com todas as minúncias da Halachá, mas esquece do espírito que há por trás dela. Ele pode saciar a sua sede espiritual fechando-se em si mesmo e ignorando o que acontece ao seu redor. “O importante é que a comida do meu prato seja Casher”

Purim foi uma lição que nós precisávamos aprender no começo da Galut (infelizmente ainda não a assimilamos totalmente): judaísmo não é apenas religião. Não é possível ser um bom judeu ignorando o que acontece ao meu redor. Não nos é permitido fechar os olhos às afrontas que ocorrem ao nosso redor. Nós não podemos ignorar a nossa dimensão nacional.

Essa é parte do libelo de Haman e de Hitler: não importa o que o judeu faça ele sempre será um povo diferente dos outros, ainda que ele pise e sapateie sobre as sua mitzvot. Mesmo na Galut o judeu possui uma dimensão nacional e ai dele se esquecer disso. Ao entender isso o judeu fortalece as suas duas dimensões: tanto a religiosa como a nacional. Ele entende que é impossível dissociar a Torá do mundo real; externo. D-us escreve reto por linhas tortas, e sem dúvida parte da função da Galut é fortalecer a nossa identidade nacional.

Não somos uma nação como todas as outras. Graças a Torá nós somos capazes de sobrevivermos mesmo no exílio, longe da pátria. Porém não somos uma religião como todas as outras. Graças a Torá somos capazes de nos reunirmos ao fim do exílio de volta a nossa pátria.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Podar a árvore

Essa semana se lê a parashá de Vaietsê, que descreve as atribulações de um judeu (vulgo Yaakov) na Síria (vulgo Iraque). Ele foge de seu inimigo mortal, Essav, e busca refúgio na casa de seu tio Lavan. Como na época não havia nenhum tipo de CLT ou outra lei trabalhista, Lavan se dá ao luxo de enganar várias vezes Yaakov explorando o seu trabalho de qualidade. Lavan era ao mesmo tempo chefe e sogro (já imaginou?).

Na Hagadá de Pessach há um trecho muito interessante no qual dizemos que Lavan foi muito pior do que o Faraó, porque Faraó “havia decretado a morte apenas aos bebês homens, porém Lavan quis arrancar tudo” (sic). Por mais marxistas que sejamos é difícil de entender porque a Torá enxerga a personalidade de um chefe cruel pior que a de um déspota genocida. O maior problema de Lavan era a sua capacidade de manipular e omitir a verdade. E essa característica não se revelou apenas no referente aos pagamentos: quando Yaakov decidiu fugir para Israe levando consigo seus filhos de volta a casa de seu pai, foi surpreendido por Lavan: “Como você pode partir sem deixar-me beijar os meus netos e minhas filhas?!”.

Lavan era capaz de se mostrar como um amigo e uma pessoa razoável. Ele era capaz de se mostrar como um avô carinhoso. Esse é o perigo que ele oferece. Existem dois tipos de inimigos do povo judeu. Um deles é como o Faraó e Essav. O ódio é declarado e a animosidade se revela ainda na barriga da mãe. Eles podem almejar matar-nos, e atirar todos os nossos filhos ao mar, mas por mais que possam nos machucar, não tem a força necessária para nos aniquilar; por mais que possam promover um Holocausto não podem impedir a fundação de um Estado Judeu em 1948. Am Israel é comparado a uma árvore. Por mais que se corte um galho, a árvore persiste.

Porém Lavan queria arrancar a árvore até as últimas raízes. Uma árvore assim não tem a menor chance de sobreviver. Lavan não queria matar Yaakov. Ele só queria impedi-lo de voltar a casa de seu pai. Ele só queria beijar seus netos mais uma vez. Ele só queria que seus netos crescessem de acordo com os seus valores; estudassem nas suas escolas; casassem com os seus parentes. Ele só queria que a família de Yaakov assimilasse a sua cultura e a seu povo. É difícil para um judeu entender que às vezes é necessário esquivar-se de um ambiente que não lhe pertence, e voltar para a casa de seu pai. Afinal de contas Lavan é o nosso avô “carinhoso”. O anti-semitismo é terrível, porém uma sociedade aberta e tolerante nos obriga a sermos cuidadosos. É preciso saber quem é Lavan e quando chega a hora de voltar para casa.